A nova estrela lusa na música americana
entrevista de António Oliveira
Sarah Borges (foto cortesia Sarah Borges.com)
Com um álbum — “Silver City” — que recolheu os melhores aplausos da crítica especializada (Melhor álbum de estreia do 2005 Boston Music Awrds), espectáculos ao vivo repletos de fãs e o prémio do Boston Music Awards 2006 para a “melhor voz feminina local”, Sarah Borges é já uma celebridade em Massachusetts, e não só. Alguns críticos dizem que ela é “a próxima nova estrela” da música, mas ela prefere continuar a trabalhar duro e a concentrar-se na sua música e nos concertos, sempre repletos de energia. Nascida em Taunton, MA, as raízes portuguesas vêm-lhe da Terceira (Açores), de onde são originários os seus bisavós Amélia Fagundes e John Barros, e do continente. Sarah cresceu na comunidade portuguesa de Taunton, à qual se encontra ainda muito ligada. Recebeu mesmo uma bolsa de estudos do Portuguese American Club of Taunton, associação da qual o seu pai é membro activo. Em Junho passado foi a atracção do Portuguese Festival, o programa de comemorações do Dia de Portugal na área de Boston. Em entrevista à ComunidadesUSA Sarah falou das suas raízes, da sua música e dos planos para futuro.
De onde vêm as suas raízes
portuguesas?
Dos meus
bisavós. Amélia Fagundes, a minha bisavó, emigrou para
Taunton, MA, com 17 anos, sozinha, da Terceira. Era dona de
casa. O meus bisavô, John Barros, veio também da Terceira
com 21 anos para se juntar a um irmão. Trabalhou na fábrica
de prata Reed and Barton. Estes são os avós da minha mãe.
Os do meu pai emigraram do continente, mas nós não sabemos
de onde nem temos informação acerca
deles.
E os seus pais, onde nasceram?
Os dois são
naturais de Taunton, MA, e estão actualmente reformados. O
meu pai foi carteiro nos correios locais e a minha mãe
professora; e também trabalhou para o estado de MA na área
da saúde mental.
O que aprecia mais na cultura portuguesa e na nossa
comunidade?
O sentido de
família. Recordo-me que da parte da família do meu pai
havia sempre tias e tios à volta em grandes almoços ao
domingo. O meu pai foi criado também pelas tias e
tias-avós.
Qual é a parte de si que é mais portuguesa?
O meu amor
pela casa. Adoro cozinhar e cuidar da casa. E sinto-me mais
ligada à minha família do que eu penso é norma na
América.
Pensa escrever no futuro canções em português, ou sobre a
realidade portuguesa, como Nelly Furtado, por exemplo?
Todas a
minhas canções são de alguma forma experiências pessoais da
minha vida. O meu disco chama-se “Silver City” por causa do
facto de haver fábricas de prata em Taunton, MA. A minha
família trabalha lá, por isso eu penso eu estas canções
também são sobre a realidade portuguesa, isto é, reflectem
a experiência de crescer na mesma cidade onde a nossa
família trabalha e viveu em alguns casos desde que emigrou
papra este país, e também da sua luta por vencerem na
vida.
Ser músico era um sonho de criança para si? Quando começou
a tocar? Os seus pais apoiaram esta decisão?
Sim, estar no
palco é um sonho da minha infância. Eu fiz muito teatro e
cantei enquanto era criança, por isso tenho alguma
experiência. No entanto, só comecei a tocar guitarra quando
entrei na escola secundária. Logo de seguida comecei a
tocar em grupos musicais. Os meus pais e a minha família
sempre me apoiaram. Foram a todos os concertos e receitais
quando era criança e adolescente. Hoje não podem fazer isso
porque eu toco um pouco por todo o país, mas vão a todos os
concertos em Massachusetts.
Gosta de algum músico português?
Gosto muito
de Gal Costa. Sei que ela é brasileira e canta em
português. Foi o guitarrista da minha banda que me mostrou
a sua música. É uma coisa única que nunca tinha
ouvido.
E de fado?
Sim, gosto, é
muito bonito. Há um restaurante português na área de Boston
chamado The Sunsent Grill que tem fado aos fins-de-semana.
É uma delicia ouvir fado naquele
ambiente.
Como se define a si própria como música e quais os nomes
que mais a influenciaram?
Sou
simplesmente uma pessoa que adora música. Gosto de todos os
estilos e géneros musicais. A música a que fui exposta
enquanto criança pelos meus pais, como os Beatles, Rolling
Stones, Bob Dylan e muito rock clássico e música folk,
representa uma parte importante nos meus gostos. Durante o
período em que vivi em Boston, enquanto estudante no
Colégio, tive a oportunidade de aprender como fazer parte
de uma banda. Aqui há muitos músicos e eu aprendi muito a
ouvir música ao vivo.
Os críticos dizem que a sua música é uma mistura de
country, blues, punk, rock’n roll e americana. Acha que
está a ser pioneira de um novo género musical, ou isso é
apenas o reflexo das suas influências?
Eu penso na
música como o reflexo dos meus gostos musicais e os da
minha banda. É como uma colecção de música privada: ninguém
tem apenas discos de música country ou de rock. E por isso
nós também não temos só canções de country ou
rock.
Não tem medo que apelando a uma vasta audiência com gostos
musicais diferentes possa limitar de alguma forma o seu
trabalho no futuro?
Não, de
maneira nenhuma. Nós vivemos num tempo em que as pessoas
têm acesso a tudo o que querem quando querem. Ser flexível
e abarcar esta grande perspectiva musical tem até sido uma
vantagem para nós, e não uma limitação.
O seu primeiro CD, “Silver City”, é um sucesso na rádio e
os seus concertos estão sempre cheios de fãs. Apesar disso
ainda é ainda um músico em part-time. Porquê?
O meu
objectivo é dedicar-me a tempo inteiro à música. Penso que
talvez no próximo ano, ou seguinte, lá chegarei. Ter um
trabalho (no Berkely College of Music) permite-me andar em
digressão durante semanas sabendo que posso pagar a minha
renda e as contas.
Disse que este disco é uma boa representação daquilo que é
como pessoa. Foi por isso que levou tanto tempo a gravar?
Acha que a música deste disco a representa melhor como
música do que os concertos?
Acho que os
concertos nos representam melhor. Uma das melhores partes
da música é a forma como elra faz as pessoas sentirem-se, e
poder interagir com a audiência realiza-nos nos concertos.
Não há nenhuma razão em especial para explicar o facto do
disco ter levado tanto tempo a gravar, apenas as
circunstâncias do tempo. Nós ainda estamos nas primeiras
etapas na formação da nossa banda, e isso também explica a
demora.
O que aprendeu na gravação deste CD que vai usar no
próximo? Quando vai ser publicado?
O nosso
próximo disco vai sair na Primavera de 2007. Penso que
aprendemos que os vários estilos e género incluídos neste
disco são o resultado de tudo o que nós gostamos na música.
Por isso o próximo vai ser igual. Também queremos trazer
para o novo disco um pouco daquilo que somos nos nossos
concertos.
Como é
o processo de escrever uma canção? Escreve sozinha? De onde
vêm as ideias?
Geralmente
escrevo a ideia base sozinha e depois levo-a para os
ensaios e o resto da banda ajuda a fazer a versão completa.
As ideias vêm da progressão dos acordes que eu vou dando na
guitarra, ou de uma ideia ou história que eu quero contar.
A música deste primeiro CD é cheia de energia mas também há
melodias servidas por uma voz excelente. Pode ver-se que a
Sarah pode transformar qualquer música no seu próprio
estilo. Penso que Bóston não é uma área muito prolífica em
termos de música blues grass ou country. Onde aprendeu a
cantar assim?
Eu adoro
cantar e sempre o fiz em toda a minha vida. Aprendi a
cantar ouvindo discos e rádio no meu quarto. Se escutarmos
muito rádio somos expostos a diferentes estilos de música.
Por isso eu aprendi a cantar em diferentes estilos. Hoje é
fácil adaptar a minha voz ao estilo musical. É como usar
diferentes roupas. Eu apenas me limito a aplicar essa
capacidade às músicas que escrevo e tento pensar no estilo
que melhor se aplica a elas.
Recentemente ganhou o prémio para a “melhor voz feminina”
do Boston Music Awards. Qual é o significado que um prémio
destes tem para si?
É uma honra.
Quando eu era criança eu via sempre os jornais do dia
seguinte com as fotos e as pessoas eram como estrelas de
cinema para mim. É espantoso com eu consegui chegar tão
longe.