Crónica da
Califórnia
Reflexos duma Comunidade
por Diniz
Borges
Aqui
em Tulare, longe de muitos dos barulhos que se fazem no
mundo de hoje, dou aulas de língua e cultura portuguesas
numa escola secundária e
no “community college” –um tipo
de escola de educação superior, que como os leitores
do Tribune
sabem, são,
para aqueles que o acabem, os primeiros dois anos dum curso
universitário. É que Deus proíba de alguém em Portugal
dizer que um “community college” é uma universidade, porque
dentro da comunidade poderá cair o “Carmo e a Trindade.”
Mas dizia eu, que aqui nesta pacata cidade, onde quase nada
acontece (e por um lado, ainda bem), temos realizado nas
últimas semanas alguns eventos que envolvem os nossos
alunos de língua e cultura portuguesas, no ensino
secundário, e particularmente os que fazem parte da
associação estudantil SOPAS—Society of Portuguese-American
Students. Têm sido actividades de índole cultural, básicas,
claro, mas que tentam congregar à volta do futuro da
comunidade, a juventude, e no seu próprio ambiente, na
escola que frequentam todos os dias, a nossa cultura, os
nossos costumes, a nossa gastronomia, a nossa música, as
nossas tradições.
São pequenos
fragmentos das nossas vivências culturais, trazidos pelos
pais ou avós (na vasta maioria avós e bisavós) destes
alunos, vivências já mescladas com as cores dum inevitável
americanismo, mas que na sua essência possuem elementos
fulcrais da identidade cultural luso-americana. São
acontecimentos dentro das instalações escolares, ou em
outros espaços do “mainstream” americano, para que os
jovens possam compreender que a cultura, nos seus vários
espaços, pode ser vivida, quotidianamente, não importa onde
estejamos. E que para se celebrar o nosso legado cultural
não precisamos de estar num espaço fechado, que é só nosso
e de mais ninguém, e que não pode ser penetrado por outros
grupos étnicos, que apesar dos anos que se passaram ainda
tem cheiro a mofo de sacristia.
Os jovens, no seu espírito rebelde e irreverente, começam
pouco a pouco a descobrir que no mundo americano, o seu
mundo e quer queiramos quer não o nosso mundo (refiro-me à
geração que de Portugal emigrou muito nova e já está
integrada, pelo menos a nível profissional, no “mainstream”
americano), há espaço para celebrarmos, melhor vivermos,
com o seu próprio tempero, sem dramatizações nem
preconceitos, o nosso próprio legado cultural.
E por acreditar na ideia duma América multicultural, das
potencialidades de uma juventude americana de ascendência
portuguesa consciente da sua identidade, preparada para a
viver no seu dia a dia, sem ficar circunscrita aos
tradicionais guetos sociais das comunidades, o seu legado
cultural, dedico as horas que posso, e que vão um bocado
além da obrigação profissional (mas nunca me queixei disso,
nem nunca me queixarei), para que ao longo do ano escolar,
se façam várias actividades extra-curriculares para que a
nossa juventude, par a par com os jovens de outras
vivências culturais, possam estar preparados para a
comunidade que se avizinha. É que a história dos grupos
étnicos nos Estados Unidos, particularmente dos Europeus é
extremamente clara: só quem tem capacidade de ir além do
seu próprio gueto, seja ele físico ou social, é que tem
sobrevivência cultural.
Nada disto, nestes reflexos, é verdadeiramente novo, mas em
fim de ano é bom que entre os jantares e os doces, numa
época em que as famílias se reúnem, porque não reflectirmos
um pouco nesta realidade que nos entra pelos olhos dentro,
diariamente, mas que ainda não quisemos interiorizar. O
nosso mundo de está cada vez mais americano, salpicado com
tonalidades portuguesas. Mas isso não é uma tragédia,
aliás, só o será se persistirmos a fazer as mesmas coisas
que fazíamos há quinze ou vinte anos, quando a comunidade
era bastante diferente.
Repito o que já disse ad
nauseum, as
comunidades de origem portuguesa, como nós as conhecíamos
há um quarto de século estão com os seus dias contados.
Dentro das nossas organizações há que termos um espírito de
abertura, de mudança e de novidade. Nas comunidades onde
existem processos para se passar o nosso legado cultural
através do mundo norte-americano, sem termos que estar
fechados numa garagem, num quarto solitário, ou num espaço
que é só nosso e de mais ninguém—há que aproveitarmos essas
possibilidades, de estarmos preparados para que a cultura,
as vivências culturais, tenham raízes suficientemente
fortes para que possam crescer em outras latitudes, no seio
de outras culturas, misturarem-se com outras experiências
culturais.
Ouço por toda a parte o orgulho de ser português ou de se
ser americano de ascendência portuguesa, porém, é sabido
que em muitos casos, e particularmente nos que têm
responsabilidades nas nossas associações, isso não passa de
um simples inchaço — um orgulho banal que, infelizmente só
serve para alimentar, como ouvi algures: egos gigantescos
de mentes minúsculas. Tenho alguma dificuldade em aceitar
que no seio das nossas associações culturais, como assim se
auto-dominam, haja mesmo esse orgulho (no bom sentido da
palavra, porque é uma palavra bastante perigosa), quando os
próprios responsáveis dessas associações não se cultivam
cultura e intelectualmente, e até se prezam em diminuir
quem o faz. Vejamos: quais dos directores das ditas
associações se esforça para saber a história dos seus
antepassados? Quais tentam aperfeiçoar os seus
conhecimentos culturais aprendendo o valor das artes, de
todas as artes, desde a literatura às artes plásticas, da
música (toda a música e não só a tradicional) à
gastronomia. Quais os que gastam tempo e energia num debate
sério, honesto e descomplexado sobre as nossas vivências
culturais, o que foram, o que são e o que poderão ser?
São reflexos para um ano que termina e uma comunidade que
se gera, sem sabermos bem como havemos de lidar com ela.
Mas não é assim tão dificultoso, apenas exige que sejamos
cultos, que aceitemos a mudança, que tenhamos coragem de
penetrarmos o “mainstream” americano, que utilizemos os
espaços e as oportunidades que as instituições públicas
desta sociedade nos oferecem, que não fiquemos pelas nossa
tradicional letargia, que imaginemos as nossas raízes
culturais em outras latitudes. Pois é, são muitos quês, não
são? Mas também estamos na época em que se fala muito nos
“homens (eu diria ser humanos -homens e mulheres) de boa
vontade. Basta apenas isso!