O Natal (a “Festa”) na ilha da Madeira
por DUARTE BARCELOS (texto e fotos)
Funchal, Madeira

De uma ponta à outra da ilha, a época do Natal é conhecida, nas diferentes freguesias da Madeira, como a “Festa” e, por analogia, Dezembro é o “mês da festa”. Para os madeirenses esta é a efeméride mais ansiada ao longo de todo o ano. Hoje pretendemos dar a conhecer aos leitores do “Mundo Português” algumas das suas características intrínsecas e únicas.
Por tradição,
por volta da primeira semana do último mês do ano é altura
de pintar as casas, fazer arrumações e limpezas a fundo, de
modo a que tudo esteja imaculado para receber o Menino
Jesus. Todos os membros das famílias são chamados a cumprir
uma ou outra função, de modo a contribuir para o máximo
asseio e perfeição.
No Funchal, capital da ilha, o trânsito automóvel e o
movimento de pessoas aumenta consideravelmente. Os passeios
enchem-se de pessoas oriundas da cidade e dos campos, todas
elas atarefadas com as suas compras de Natal para os
familiares e amigos. Por volta do dia 10 são acesas as
luzes multicolores que, com várias formas, enfeitam as
principais artérias da cidade, sendo, em si, uma atracção
para naturais e turistas que ali se deslocam para “ver as
luzes”. Ao longo das placas da Avenida Arriaga, em frente à
Sé Catedral, todos os anos são montados vários quadros
vivos alusivos à época natalícia, que também atraem muitos
visitantes. Todo o anfiteatro funchalense é reforçado com
milhares de lâmpadas, fazendo a capital da ilha
assemelhar-se a um presépio gigante, tal é a profusão de
luz que dele emana.
Para muitas pessoas, no entanto, o “começo da festa”
assinala-se com a “morte do porco” que foi engordado ao
longo do ano com este destino. A “função do porco”, como
por cá é conhecida, permite a reunião de familiares e
amigos em salutar convívio e divisão de esforços. Ao ser
abatido do modo tradicional, cabe sempre a uma criança mais
afoita a tarefa de “aparar o sangue”, que depois é fervido
para fazer a morcela. Depois de morto, os “marchantes”
procedem à chamusca, raspagem e abertura do animal. Parte
da carne é seleccionada para fazer-se a tradicional “carne
de vinho e alhos”, e a banha derretida para se fazerem os
torresmos, verdadeiros acepipes para o palato dos
madeirenses. Antigamente, a carne era salgada e guardada no
“salgueiro” de modo a durar todo o ano, mas hoje em dia
esta prática está a cair em desuso.
Iluminação de Natal na zona
da Sé
Um outro aspecto importante da “Festa” consiste na montagem
da “lapinha” de rochinha ou de escadinha. Para o primeiro
tipo, geralmente os mais jovens são incumbidos de “ir à
serra” buscar musgo, “cabrinhas”, troncos velhos e demais
decorações naturais. Este tipo de presépio reproduz, em
certa medida, a orografia montanhosa da ilha, sendo usual
espalhar-se pelo mesmo casinhas em miniatura. Algumas
pessoas montam o seu pequeno presépio num canto da sala e
outras desocupam um quarto para fazerem um de tamanho
gigantesco. Quanto à “lapinha de escadinha”, esta consiste
na construção de uma estrutura, tipo pirâmide, com vários
degraus, onde se colocam o trigo, plantado dias antes em
pequenos recipientes, e frutas da época, tudo isto encimado
pelo Menino Jesus. Segundo consta, este é um modo de pedir
a bênção das colheitas. Paralelamente a isto também se
enfeita um pinheiro natural ou made in
China com as luzes e
espiguilhas de cores garridas. No exterior das casas, no
entanto, quem domina as decorações são os Pais-Natal que se
vêem em diversos tamanhos e em tamanha quantidade, quantas
bandeiras de Portugal durante o Euro 2004. Há-os de todos
os gostos e feitios. Visto que actualmente as chaminés das
casas foram substituídas por exaustores – e portanto
impossíveis de penetrar pelo velhinho das barbas brancas –
estes são colocados nos lugares mais insólitos: a subir
varandas, agarrados aos tapa-sóis ou pendurados nas
árvores. Por vezes chegamos ao insólito de observarmos dois
ou três Pais-Natal a decorar uma casa. É o
marketing
natalício a
falar mais alto.
Longe vai o tempo em que nas duas semanas antes do Natal as
estações dos correios se enchiam de pessoas que pretendiam
enviar postais alusivos à época aos seus familiares e
amigos espalhados pela ilha e pelos quatro cantos do mundo.
Actualmente, através do e-mail
é
mais fácil e barato enviarem-se e-cards
e
votos de Boas Festas. E quem não tem acesso à
Internet,
tem sempre um telemóvel à mão, que dá sempre jeito para se
mandarem mensagens de Natal, que estão na moda, indicam-no
os números.
A nível gastronómico o Natal madeirense também é muito rico
em cores e sabores. As senhoras têm por hábito fazer
licores de vários sabores, os típicos bolos e broas de mel,
feitos com mel de cana regional, entre outra doçaria
própria da época, que fazem as delícias de miúdos e
graúdos.
Mas na Madeira a “Festa” é muito mais que enfeites e
decorações, pois esta é vivida muito intensamente a nível
religioso, sobretudo nas zonas rurais. A partir do dia 15
de Dezembro têm início as nove “Missas do Parto”, que se
realizam de madrugada em todas as paróquias. Geralmente
estas ocorrem às cinco, seis, ou sete da manhã e o povo que
a elas acorre geralmente enche as igrejas. A caminho destas
lançam-se foguetes, tocam-se búzios e os sinos das igrejas
repicam em sinal de chamamento. Ao som de cânticos como
“Virgem do Parto, ó Maria; Senhora da Conceição; Dai-nos as
festas felizes; A Paz e a Salvação” as pessoas preparam-se
para o nascimento de Jesus Menino. No fim das missas, no
adro das igrejas, as pessoas reúnem-se para, em conjunto
partilharem uma canja de galinha ou um outro acepipe e
dá-se continuidade à entoação de cânticos natalícios,
devidamente musicados por acordeões, rajões e machetes.
Desde há cerca de vinte anos que no Funchal se faz todos os
anos, na noite do dia 23 para 24, a tradicional “noite do
mercado”. Esta consiste basicamente na possibilidade dos
funchalenses, e não só, poderem deslocar-se ao Mercado dos
Lavradores para comprarem os últimos legumes, frutas e
hortaliças para esta quadra festiva. Paralelamente a isto,
nas “vendas” ao redor do mercado são adquiridas dezenas de
milhar de sandes de “carne de vinho e alhos”, devidamente
acompanhadas por “vinho novo” ou cerveja. Na escadaria da
“praça do peixe”, no interior do mercado, um grupo entoa
vários cânticos de Natal. Tanto aquele espaço como as ruas
em redor enchem-se de gente ávida por participar nesta
noite emblemática da capital funchalense.
Na véspera de Natal é usual servir-se uma ceia de canja de
galinha “criada em casa”, após a qual é “obrigatório” ir-se
à Missa do Galo, que também se realiza em todas as
paróquias e que costumam atrair muitos fiéis.
O dia 25, ou “dia de Festa”, é passado em família. As
crianças, tendo aberto os seus presentes, deliram com as
suas novas playstations,
leitores de mp3,
Barbies,
carros telecomandados ou outros brinquedos trazidos pelo
Pai Natal. Na Madeira, como no resto do mundo, as crianças
exigem cada vez mais brinquedos topo-de-gama ao pobre São
Nicolau. Os dias 26 e 27, aqui conhecidos como primeira e
segunda “oitava”, são dedicados às visitas aos familiares e
amigos, com o intuito de “ver a lapinha” e provar as
apreciadas iguarias feitas pelas donas de casa.
A lapinha madeirense
O
fogo-de-artifício que ilumina o anfiteatro funchalense
no réveillon
é
inesquecível para todos aqueles que a ele assistem. Os
hotéis da Madeira enchem-se, ano após ano, nesta época com
muitos turistas, oriundos de vários países, que não querem
perder este espectáculo único. Todos os anos cerca de dez
navios de cruzeiro fazem questão de mostrar este
espectáculo único aos seus passageiros.
Não se pense que a “Festa” termina na noite do fim de ano.
Com efeito, esta passa pelo “Dia de Reis” e prolonga-se até
15 de Janeiro, dia em que se comemora a festa de Santo
Amaro. Na Madeira, paralelamente a esta solenidade,
assiste-se ao “varrer dos armários” em cada uma das casas.
Isto não significa que os armários tenham pó e o verbo é
aqui utilizado em sentido figurado. Na prática, comem-se os
últimos doces e bebem-se os licores que ficaram da “Festa”.
Por esta ocasião muitas pessoas vão à casa dos seus
familiares dar o seu contributo a estas “varridelas”.
Aqui se descreveram, em traços largos, as principais
características da “Festa” madeirense com o intuito de
fazer “matar saudades” e dar a conhecer, aos meus patrícios
e aos portugueses em geral espalhados pela grande América,
as vivências da época natalícia todos os anos observadas na
ilha da Madeira.