Com
estes encerramentos o governo poupa 3,6 milhões de
euros/ano, mas só os emigrantes dos
Estados
Unidos enviam para Portugal 643 mil euros por
dia...
A comunidade portuguesa de Nova Iorque foi
apanhada de surpresa com a notícia do possível encerramento
do Consulado Geral de Nova Iorque. O encerramento deste
posto consta da proposta de reestruturação consular
anunciada esta quinta-feira em Lisboa pela Secretaria de
Estado das Comunidades Portuguesas que prevê o fecho de 7
Consulados Gerais, 11 Consulados, um escritório consular e
a transformação de alguns Consulados em Vice-Consulados.
As reacções da comunidade
Para António Castro, o
presidente da Associação Cívica do Estado de Nova Iorque, a
federação que reúne todas as associações e clubes
portugueses do estado, a decisão de encerrar o Consulado de
Nova Iorque revela “vistas curtas” das autoridades
portuguesas.
“Estou completamente surpreendido com esta decisão, que é
incompreensível para todos”, disse à LUSA António Castro.
“No estado de Nova Iorque residem muitos milhares de
portugueses e este Consulado é absolutamente necessário
para as servir, para além de ser uma mais-valia para a
imagem de Portugal”, acrescentou.
António Castro lamentou a decisão e disse que, a ir para a
frente, reflecte uma “falta de consideração” por uma
comunidade estimada em mais de 60 mil pessoas, entre
emigrantes de primeira e segunda gerações”.
Também para José Santos, presidente do Portuguese American
Club de Mount Vernon, uma das maiores e mais antigas
associações portuguesas do estado, esta decisão do governo
português é “incompreensível”.
“O Consulado de Nova Iorque é um dos mais antigos desta
área e serve uma população muito grande, não se compreende
que encerre sem justificação”, disse. “Se isso for para a
frente, há portugueses em Nova Iorque que vão ter de viajar
mais de 2 horas para irem ao Consulado em Newark, Nova
Jérsia, que, pelo que ouço dizer, está sempre cheio e onde
é preciso marcar entrevista e esperar dias para sermos
atendidos”, acrescentou José Santos.
A reacção do Conselho das
Comunidades Portuguesas
Já o presidente da secção
local do Conselho das Comunidades, Diniz Borges, acusa
directamente o secretário de Estado das Comunidades, destas
decisões polémicas na reestruturação consular, feitas à
revelia do Conselho.
Diniz Borges disse que os Conselheiros dos Estados Unidos
não foram ouvidos nesta questão, tratada apenas a nível do
Conselho Permanente. “É mais um indício claro que o sr.
Secretário de Estado António Braga não tem qualquer apreço
pelo trabalho dos Conselheiros nem grande consideração
pelas nossas comunidades”, disse Diniz Borges à LUSA.
Quanto ao encerramento dos postos de Nova Iorque, New
Bedford, Providence e Bermuda Diniz Borges considerou
particularmente o caso de Nova Iorque com “um absurdo”.
“Como é possível Portugal deixar de ter representação
consular na cidade mais importante do globo, quer
económica, quer cultural, que politicamente?”, pergunta o
Conselheiro. “Para além do Consulado de Nova Iorque servir
mais de 60 mil portugueses e seus descendentes só neste
estado, serve ainda o estado de Connecticut, onde residem
mais de 30 mil”, acrescentou
Quanto a New Bedford e Providence, respectivamente em
Massachusetts e Rhode Island, o conselheiro lamentou que o
governo tenha decido pelo encerramento dos dois postos
simultaneamente.
“Com o fecho destes dois consulados, toda a comunidade do
sul de Massachusetts e Nova Inglaterra se vê agora obrigada
a deslocar-se a Bóston, uma cidade complicada em termos de
trânsito e acessos e onde nem residem portugueses”,
explicou.
Diniz Borges lembrou que a zona de maior implantação das
comunidades portuguesas, desde o século XIX, é precisamente
aquela onde se situam os postos de New Bedford e
Providence, que agora vão encerrar. “Acho que revela um
sentimento de abandono, e até desprezo, para com as
comunidades desta área”, disse ainda a mesma fonte.
No caso da Bermuda, onde se prevê a substituição do
Consulado por um cônsul honorário, Diniz Borges disse estar
“atónito” com esta decisão, pois são sabidos os problemas
com que se debatem os emigrantes portugueses nesta ilha por
causa das constantes faltas de cônsul ou funcionário
consular em Hamilton. “Como é que o governo português
espera resolver os problemas do previsto regresso em massa
dos emigrantes cujo visto de permanência expira em 2007
apenas com um cônsul honorário quando agora com um de
carreira não o faz?”, interroga-se Diniz Borges. O
conselheiro lamentou ainda que Portugal pareça apenas
estará a olhar, com esta reestruturação, para a questão
financeira, e esqueça que os emigrantes portugueses nos
Estados Unidos enviam para Portugal 634 mil Euros por dia.
O cônsul-geral de Portugal em Nova Iorque, o embaixador
Almeida Fernandes, que não quis comentar a notícia do
encerramento do seu posto, alegando que se trata apenas de
uma proposta e que nada é definitivo. No entanto, quando
inquirido sobre as consequências que esse eventual
encerramento teria para a comunidade portuguesa do estado,
Almeida Fernandes afirmou que ele traria um enorme
“inconveniente” para as pessoas, especialmente no caso da
emissão de Bilhetes de Identidade e passaportes, actos que
obrigam à presença do requerente, o que implicaria grandes
deslocações. Por outro lado, se o Consulado em Nova Iorque
encerrasse, Portugal seria, segundo Almeida Fernandes, o
“único país da União Europeia sem representação diplomática
na cidade”.
New York tem 45 mil
inscritos
O Consulado de Portugal em
Nova Iorque tem actualmente cerca de 45 mil portugueses
inscritos, o que não é representativo do real número da
comunidade portuguesa, uma vez que muitos luso-descendentes
não se inscrevem a não ser quando necessitam de qualquer
acto consular. Para além dos serviços consulares à
comunidade, que ultrapassam os muitos milhares de actos por
ano, este Consulado é muito procurado por americanos e
outros cidadãos estrangeiros que ali se dirigem para
requerer vistos de entrada em Portugal. Durante o mês de
Novembro passado, por exemplo, foram pedidos neste
consulado mais de uma centena a de vistos de entrada em
Portugal, segundo uma fonte consular.
A decisão do encerramento deste consulado apanhou assim de
surpresa todos os funcionários, tanto mais que Portugal é
proprietário (e não inquilino) de um apartamento no mítico
prédio Dakota, onde viveu John Lennon, e que serve de “sala
de visita” dos políticos portugueses que se deslocam a
NY